Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Investigando filhos

Pais pagam para espionar filhos

Rodrigo Camarão

O telefone celular do detetive particular Humberto Pires toca, ele se ajeita no banco do carro estacionado perto de um condomínio do Leblon, enquanto a parceira prepara a filmadora. Do outro lado da linha, um desembargador avisa que seu filho de 18 anos acabou de sair. Na véspera, o magistrado tinha procurado a Central Única Federal dos Detetives com objetivo de contratar alguém para seguir o jovem. Cada vez mais, casos como esse têm se repetido nas classes médias e altas da Zona Sul e Barra da Tijuca. São pais desesperados que gastam até R$ 5 mil para saber, em 15 dias, se os filhos, de 15 a 23 anos, usam drogas ou envolvem-se em casos como o dos jovens que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, semanda passada, na Barra.

Os pais autorizam a entrada do detetive no quarto do filho. Os objetos são vasculhados minuciosamente. Microcâmeras, estrategicamente posicionadas. No computador, os arapongas instalam o CD espião, programa que grava tudo o que é digitado em sites de relacionamento, como o Orkut, ou em programas de bate-papo, como o MSN.

O trabalho de campo não é desprezado. Eram 18h de uma sexta-feira, quatro meses atrás, quando o filho do desembargador explicou ao pai que veria amigos no Shopping Rio Sul, em Botafogo. O jovem encontrou-se lá com quatro adolescentes, mas entrou num Honda Civic e foi para a Favela da Fazendinha, no Complexo do Alemão. O motorista, um jovem de 20 anos, comprou maconha, voltou para o carro e os cinco seguiram para o Morro da Fé, na Vila da Penha. Duas horas depois, estavam no baile funk da Chatuba, na Penha. Já eram 2h de sábado quando o Honda Civic estacionou em frente ao condomínio de classe média alta do Leblon e o filho do desembargador saltou.

Logo atrás, Pires encostava o carro com três horas e meia de imagens do passo-a-passo dos adolescentes. Um dia depois, o aparelho de DVD do apartamento do Leblon exibia durante uma hora as cenas chocantes para um pai arrasado. O desembargador não resistiu.

- Ele colocou as mãos no rosto e chorou por alguns minutos - lembra o detetive, 25 anos. O pai prometeu tomar providências, mas até onde o investigador sabe, nada foi feito.

Pires é um detetive particular que se especializou nesse tipo de caso. Por mês, diz que 20 pais o procuram, interessados em contratar seus serviços de espionagem. Quinze fecham o serviço. O tipo de trabalho é batizado entre os arapongas de filhos com drogas, assim como há casos de infidelidade conjugal - ainda o grande filão - e espionagem industrial.

Rodrigo Pessoa, da Central Nacional de Assessoria em Investigação (Cnaispy), trabalha em monitoramento de filhos de clientes desde 1998. Reivindica a autoria da expressão que passou a refletir o ponto em que o comportamento dos jovens dentro de casa já é um verdadeiro mistério para os pais. Por mês, o detetive é contratado para seguir, em média, cinco filhos de empresários, médicos, juízes ou advogados.

- Tivemos o caso de um jovem que roubava dinheiro da carteira dos pais - conta Rodrigo. - Ele ainda torrou um carro e dois celulares por causa do vício em crack.

Bechara Jalkh Júnior é filho de uma lenda na investigação particular e fã de Sherlock Holmes. Aos 25 anos, tem oito de trabalho na empresa de assessoria e pesquisa do pai e coordena, desde fevereiro, o primeiro curso técnico de investigação do Brasil, na Universidade Estácio de Sá.

- Muitos têm receio de expor o filho. Acham que o detetive particular é aquele cara de bigode e cachimbo, escondido atrás do jornal. Quando o pai nos contrata, o filho já está, muitas vezes, no fundo do poço. Por isso, indicamos psicólogos.

Sócio da Central Única Federal dos Detetives, em Brasília, Edilmar Lima, 31 anos, acha que pagar de R$ 3 mil a R$ 5 mil por uma investigação que dura de uma semana a 15 dias é investimento. Em poucos anos, o número de casos de filhos com drogas da agência quintuplicou.

- Melhor gastar agora do que acordar de madrugada com uma ligação do delegado, dizendo que seu filho ateou fogo em um índio - exemplifica Lima, ao citar o caso do pataxó Galdino Jesus dos Santos, há 10 anos, em Brasília. - Muitos pais não percebem que os filhos não precisam só de bens e dinheiro. Precisam de mais atenção.

JB ON LINE
==========

0 Comentários:

Postar um comentário

Links para esta postagem:

Criar um link

<< Início