Espionagem é parte integrante da política
GRAMPOS - Espionagem é parte integrante da política
Vasconcelo Quadros Brasília - JORNAL DO BRASIL
Criada para investigar a rede de espionagem que cresceu graças à fragilidade do sistema telefônico e à omissão do poder público, a CPI do Grampo, ainda sem um foco objetivo, patina na Câmara. Mas os deputados que participam das investigações têm razão pelo menos num ponto: o grampo e a espionagem praticamente fazem parte da política.
- Estimo que 40% dos políticos e empresários de Brasília estão no grampo e ou recorrem a detetives particulares - afirma o proprietário de uma das maiores empresas do gênero, Edilmar Lima, da Central Única dos Detetives, dona de um cadastro com cerca de 8 mil arapongas em todo o país e uma clientela média permanente de pelo menos 20 parlamentares do Congresso, entre deputados e senadores.
Ele nega que faça ou permita a espionagem ilegal, não revela o nome de clientes, mas diz que a preocupação de parlamentares que se consideram alvos de monitoramento não é mera paranóia. Lima lembra que a lei protege atividades de investigação na área privada, mas também admite, sem rodeios, que uma boa parte dos detetives particulares recorre, sim, ao grampo clandestino como meio de vida.
- É arriscado, mas muitos usam grampos. - diz. Quem os procura também já está agindo de má-fé. O problema é que, quando não há flagrante, o grampo não deixa vestígios.
Atuação
O último levantamento sobre a amplitude dessa rede dá conta de que que existem no país cerca de 120 mil detetives particulares, agregados a empresas de segurança privada ou atuando em faixa própria - a grande maioria na completa informalidade. Os órgãos policiais não exercem qualquer controle sobre a atividade, o que torna a espionagem uma rotina numa cidade como Brasília, onde a intriga - alimentada pela corrupção, disputa pelo poder e a tradicional promiscuidade entre atividade parlamentar e negócios - freqüentemente está associada à política.
- Quatro em cada dez pessoas que procuram um detetive querem o grampo - calcula o detetive. - Se não há controle oficial sobre sobre a escuta autorizada pela Justiça, imagine então como é na área privada.
Embora Lima negue que seu escritório opere na clandestinidade, no ano passado, ele virou personagem da onda de denúncias publicadas pela revista Veja contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Chegou a ser apontado como o detetive contratado por Renan para espionar um adversário, o senador tucano Marconi Perillo. Uma investigação do Senado concluiu que ele nada tinha a ver com o assunto e que nem o ex-presidente do Congresso - absolvido pouco depois - havia encomendado a espionagem.
[ 25/02/2008 ] 02:01

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